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Venezuela, Clima e Energia: sinais de um novo ciclo de poder baseado no controle de recursos fósseis

"Sinais de um novo ciclo de poder baseado no controle de recursos fósseis."

Por: Editorial NaqīKarbon.  

Na madrugada de 03 janeiro de 2026, uma intervenção militar dos EUA na Venezuela — culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro — reconfigurou não apenas o equilíbrio geopolítico regional, mas também enviou sinais inequívocos aos mercados energéticos globais. Não se trata de um episódio isolado, tampouco de uma ação exclusivamente política. O movimento ocorre em um contexto mais amplo de reposicionamento estratégico dos Estados Unidos em relação à energia, à governança climática e à economia de baixo carbono.

A Venezuela abriga uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Em qualquer leitura geopolítica séria, o controle — direto ou indireto — sobre territórios com alta densidade de recursos fósseis continua sendo um instrumento central de poder. A transição energética global, embora em curso, ainda não alterou completamente essa lógica. Ao contrário: em momentos de instabilidade ou realinhamento internacional, o fóssil volta a ocupar o centro da estratégia.

Paralelamente a esse episódio, a administração dos Estados Unidos optou por não enviar representantes de alto nível à COP30 Brazil. O gesto, embora simbólico, tem implicações práticas relevantes. A ausência em fóruns multilaterais enfraquece mecanismos de coordenação internacional, reduz a previsibilidade regulatória e sinaliza menor comprometimento com acordos climáticos de longo prazo — elementos fundamentais para a confiança dos mercados e para a atração de investimentos em descarbonização.

No plano doméstico, os sinais são convergentes. Reestruturações recentes no Departamento de Energia resultaram na remoção ou esvaziamento de escritórios dedicados à eficiência energética e à demonstração de tecnologias limpas. Simultaneamente, centros de pesquisa climática e escritórios de clima vinculados ao Departamento de Estado foram extintos ou fragmentados. Essas decisões afetam diretamente a capacidade institucional dos Estados Unidos de sustentar políticas públicas consistentes de transição energética, além de reduzir canais formais de financiamento, pesquisa aplicada e cooperação internacional.

Quando observados em conjunto, esses movimentos — ação militar sobre um território estratégico em fósseis, retração diplomática em arenas climáticas globais e desmonte institucional interno — formam um padrão. Trata-se de um reposicionamento que privilegia segurança energética baseada em fósseis, soberania geopolítica e controle de recursos, em detrimento de uma transição climática coordenada, multilateral e estruturada.

Dois coelhos com uma cajadada só”: enfraquecendo um elo estratégico para a China

A intervenção na Venezuela e o recuo climático coordenado podem ser lidos como uma jogada de duplo propósito. Além de reafirmar o controle ocidental sobre recursos energéticos críticos, o movimento visa minar diretamente uma das principais estratégias de expansão geopolítica e econômica da China nas últimas décadas: a Diplomacia dos Empréstimos e Recursos.

A China se tornou o credor e parceiro energético de última instância para a Venezuela, com um volume colossal de empréstimos lastreados em petróleo – investimentos que já eram considerados de alto risco e baixa liquidez. A desestabilização do governo Maduro e a instalação de outro potencialmente alinhado aos interesses ocidentais ameaçam anular ou reestruturar unilateralmente esses acordos, podendo resultar em: 

1. Perda financeira direta: A China veria bilhões em empréstimos transformados em dívida impagável ou objeto de disputa legal internacional prolongada.

2. Erosão do modelo de influência: O caso serviria como um alerta severo para outros países do Sul Global endividados com Pequim, sinalizando que acordos com a China podem não sobreviver a uma mudança de regime ou a uma intervenção externa, aumentando o risco percebido do modelo chinês.

3. Disrupção no acesso a recursos: A Venezuela era um pilar do suprimento de petróleo pesado para a China, ajudando a diversificar suas fontes frente à instabilidade do Oriente Médio. O controle do recurso por uma nova administração, possivelmente hostil a Pequim, coloca essa cadeia em risco.

Assim, o episódio vai muito além da Venezuela. Ele é um golpe estratégico na arquitetura de influência global chinesa, atingindo-a justamente no ponto onde seu poder econômico se conecta com sua vulnerabilidade política: investimentos atrelados a regimes instáveis. Enquanto os EUA utilizam poder militar e diplomacia coercitiva para reconfigurar o tabuleiro, a China, cujo poder é predominantemente econômico-financeiro, vê seu principal instrumento de projeção ser contestado de forma abrupta e militarizada.

Esta "cajadada dupla" – reassumir o controle de um hub energético estratégico enquanto “puxa o tapete” um rival sistêmico – ilustra com clareza brutal que o novo (ou renovado) ciclo de poder não será disputado apenas em campos de batalha ou poços de petróleo, mas também nos frágeis contratos e nas teias de dependência financeira que sustentam a globalização.

Implicações para o mercado climático e a economia de baixo carbono

Para o mercado climático, o efeito imediato é o aumento sensível do risco político. Projetos de descarbonização dependem de estabilidade normativa, previsibilidade institucional e confiança na continuidade de políticas públicas; quando atores centrais sinalizam ambiguidade ou retração, o capital tende a buscar refúgio em ativos percebidos como mais seguros, e entre esses continuam os combustíveis fósseis. O resultado aparece com rapidez: maior volatilidade nos mercados de energia, reavaliação ou postergação de iniciativas de baixo carbono em contextos sensíveis, pressão crescente sobre mecanismos de crédito de carbono e financiamento climático, e um encarecimento do custo de capital para empreendimentos sustentáveis.

Essa dinâmica reforça e aprofunda uma assimetria histórica. A captura do debate climático por interesses geopolíticos faz com que países com maior poder militar e econômico mantenham a prerrogativa de definir regras e prioridades, enquanto territórios ricos em recursos — especialmente no Sul Global — ficam mais expostos a intervenções, instabilidade institucional e modelos extrativistas que concentram ganhos e externalizam riscos. Em outras palavras, o recuo climático e a disputa por recursos não apenas deslocam fluxos de investimento; redesenham quem tem condições de participar da transição e em que termos essa transição será efetivamente conduzida.

O Sul Global como território de disputa

A Venezuela, nesse contexto, não é apenas um caso nacional. Ela se torna símbolo de um modelo de mundo em disputa: de um lado, a promessa de uma transição energética justa, descentralizada e socialmente orientada; de outro, a reafirmação de um paradigma fóssil-extrativista, finito e concentrador de poder.

Esse precedente é particularmente sensível para a América Latina e outros territórios do Sul Global, onde abundam recursos naturais estratégicos — fósseis, minerais críticos e biodiversidade — e onde a governança institucional frequentemente é mais vulnerável a choques externos. A mensagem implícita é clara: a transição energética não elimina disputas por recursos; ela as reorganiza.

Nesse contexto, observa-se uma reconfiguração silenciosa das estratégias adotadas por atores envolvidos na transição energética. A crescente percepção de risco político tem levado à valorização de arranjos regulatórios e contratuais mais resilientes, capazes de absorver instabilidades institucionais e mudanças abruptas de orientação soberana. Em paralelo, torna-se mais frequente a busca por estruturas de financiamento diversificadas, nas quais capital público e privado, garantias multilaterais e instrumentos híbridos funcionam como amortecedores da volatilidade geopolítica. Ao mesmo tempo, projetos de baixo carbono que incorporam governança territorial, benefícios socioeconômicos locais e legitimidade comunitária tendem a apresentar maior capacidade de permanência e adaptação, reduzindo sua exposição a choques externos e reforçando sua sustentabilidade de longo prazo.

Reconfigurações em curso

O episódio na Venezuela configura mais do que uma crise regional: trata-se de um teste para a governança climática global. A transição energética não é apenas um desafio tecnológico, mas institucional, político e ético. Sem estabilidade, coordenação internacional e compromisso público, a economia de baixo carbono torna-se refém de ciclos de poder e interesses imediatos.

Monitorar decisões institucionais — como reorganizações em órgãos energéticos, presença em fóruns multilaterais e estratégias geopolíticas sobre recursos — será essencial para ajustar políticas, investimentos e modelos de atuação. O futuro climático dependerá, em grande medida, de como o mundo responderá a esses sinais agora.


Obrigado por chegar até aqui. Este texto faz parte do esforço da NaqīKarbon por análises que conectam geopolítica, finanças e integridade climática no mercado de carbono — leitura que muitos ignoram, mas que define riscos e oportunidades reais.


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