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Destaques

Venezuela, Clima e Energia: sinais de um novo ciclo de poder baseado no controle de recursos fósseis

"Sinais de um novo ciclo de poder baseado no controle de recursos fósseis." Por: Editorial NaqīKarbon .   Na madrugada de 03 janeiro de 2026, uma intervenção militar dos EUA na Venezuela — culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro — reconfigurou não apenas o equilíbrio geopolítico regional, mas também enviou sinais inequívocos aos mercados energéticos globais. Não se trata de um episódio isolado, tampouco de uma ação exclusivamente política. O movimento ocorre em um contexto mais amplo de reposicionamento estratégico dos Estados Unidos em relação à energia, à governança climática e à economia de baixo carbono. A Venezuela abriga uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Em qualquer leitura geopolítica séria, o controle — direto ou indireto — sobre territórios com alta densidade de recursos fósseis continua sendo um instrumento central de poder. A transição energética global, embora em curso, ainda não alterou completamente essa lógica. Ao contrário: em momento...

Silêncio da biocultura: a desvalorização de saberes tradicionais em sustentabilidade

Cada vez mais o foco está em cumprir metas de carbono, deixando para trás saberes tradicionais que genuinamente ajudariam a combater a crise climática.

Por: João Azevedo (Coordenador M&C) e Pedro Boreck (Cofundador)

Freepik.com

Buscando emitir selos meramente demagógicos, empresas, governos e cientistas estudam incessantemente a criação de novos modelos sustentáveis. Dessa forma, paralelamente, algo trágico acontece: o desaparecimento de saberes tradicionais. O silêncio da biocultura não apenas desvaloriza valores culturais ricos, como também diminui a nossa capacidade de adaptação às abruptas mudanças climáticas.

Neste artigo, a NaqīKarbon vai te ajudar a entender por que tudo isso importa tanto — e como exatamente o abandono de conhecimentos ancestrais ameaça horizontes positivos de enfrentamento à crise climática.

Então não se esqueça de passar o seu protetor solar e venha conosco!



A teia da biocultura e o perigo do esquecimento

Antes de mais nada: o que é biocultura? Bom, ela representa a relação que há entre a diversidade da natureza e as práticas culturais humanas. Na prática, podemos exemplificar isso com costumes sustentáveis de povos indígenas, quilombolas e de outras comunidades tradicionais — desde técnicas de manejo da terra e conservação de espécies até formas de agricultura adaptadas ao clima e usos altamente eficientes de recursos naturais.

Esses conhecimentos passaram de geração em geração de várias formas, como na fala, nos ritos, na prática coletiva, entre outras. Em linhas gerais, são verdadeiras bibliotecas vivas de sabedoria.

Mas essa riqueza está em risco. Em 2021, a FAO já alertou que saberes agrícolas tradicionais estão desaparecendo rapidamente. Calcula-se que 75% da diversidade genética das culturas alimentares do mundo foi perdida desde o começo do século XX. O resultado são comunidades mais expostas a pragas, secas e mudanças bruscas no clima, além da perda de autonomia alimentar.

O colapso ecológico contemporâneo não é apenas um problema técnico ou ambiental, mas uma mutação civilizatória que desafia os fundamentos da modernidade. A separação entre natureza e sociedade, central ao pensamento "moderno" ocidental, produziu um imaginário de progresso infinito que, ao negar a agência do mundo em que vivemos, culminou em tal colapso. Em contraponto, conhecimentos tradicionais, de diversos povos, oferecem cosmologias que reconhecem a interdependência entre humanos e não humanos, apontando para caminhos de resiliência e sustentabilidade. Defende-se que a descarbonização precisa ser compreendida não apenas como transição tecnológica, mas como transformação ética, política e ontológica. A crise climática que atravessamos não pode mais ser entendida como uma 'crise passageira' ou como uma anomalia a ser corrigida com ajustes técnicos. Como argumenta Bruno Latour, estamos diante de uma mutação civilizatória irreversível: o Antropoceno revelou que os humanos não apenas habitam a Terra, mas tornaram-se força geológica capaz de remodelar ciclos climáticos e ecológicos, ao mesmo tempo em que a própria Terra se apresenta como um agente ativo, reativo e imprevisível. A ideia moderna de 'Natureza' como pano de fundo inerte e estável desmorona quando nos deparamos com incêndios florestais de proporções inéditas, com a elevação do nível dos mares ou com a instabilidade do clima global. A Terra, pelos "modernos" concebida como cenário, tornou-se protagonista.

O núcleo do diagnóstico de Latour (2020) está justamente na crítica à dicotomia moderna entre natureza e sociedade, ciência e política, fato e valor. Essa separação permitiu que o Ocidente acreditasse em um "progresso" ilimitado, como se o planeta fosse apenas repositório de recursos infinitos. Ao negar a agência da chamada "natureza", projetou-se a ficção de um crescimento sem fim, conduzido pela promessa de controle humano dos recursos. No entanto, a própria emergência climática mostrou que esse modelo é insustentável. O mundo em que vivemos, como figura teórica e política, não é uma entidade benevolente nem um sistema coeso e harmônico, mas a multiplicidade de processos instáveis, históricos e entrelaçados que mantêm o planeta habitável, ou não. Ele reage às nossas ações, mas não de modo previsível ou controlável: sua resposta é contingente, caótica, e muitas vezes devastadora.

Essa constatação nos obriga a abandonar tanto o negacionismo científico quanto a crença tecnocrática em soluções rápidas. Ambas as posturas permanecem reféns do mesmo imaginário moderno que as gerou, incapazes de reconhecer que o desafio não é "controlar a natureza", mas aprender a negociar com um mundo ativo. Cada árvore que sombreia uma rua, reduzindo o consumo de ar-condicionado, cada raiz que fortalece o solo contra enchentes, cada microalga que capta carbono, mostra que o que chamamos de "natureza" é, na verdade, infraestrutura viva. A descarbonização só terá êxito quando incorporarmos esse princípio: o planeta não é pano de fundo, mas agente de coabitação.


Saberes tradicionais como aliados na adaptação climática

Mas o que exatamente o mundo perde quando um saber tradicional se extingue? Infelizmente, perde soluções que foram testadas durante séculos e que se mostraram altamente eficazes em manter a vida em equilíbrio com a "natureza".

Os sistemas de conhecimento indígena, por exemplo, nos dão respostas práticas para enfrentar a crise climática — começando pelo manejo agroflorestal e indo até técnicas de pesca sustentável, como o uso de saberes ancestrais no manejo do pirarucu na Amazônia. Essas práticas contribuem não só na conservação dos ecossistemas, mas também ajudam a economia e a própria vida comunitária.

Não é por acaso que a Plataforma de Comunidades Locais e Povos Indígenas (LCIPP), da ONU, tanto exalta e fortalece tais conhecimentos. Afinal, as comunidades mais afetadas pelas mudanças climáticas (que não foram elas que provocaram) muitas vezes são as mesmas que guardam soluções ancestrais de resiliência.

Nesse ponto, os conhecimentos tradicionais oferecem lições decisivas. Muitos povos indígenas das Américas, por exemplo, nunca operaram sob o divisor natureza/cultura; nesse contexto, rios, montanhas e animais são sujeitos com os quais se estabelece relação de reciprocidade. Práticas como a agricultura de coivara com pousio e regeneração, a rotação de roças e o manejo de florestas secundárias demonstram um entendimento sofisticado de sustentabilidade, em que a regeneração ecológica faz parte da lógica produtiva. O princípio do bem viver (sumak kawsay), presente em cosmologias andinas, evidencia uma ética que privilegia equilíbrio e interdependência, em vez do acúmulo e da exploração sem fim (Viveiros de Castro, 1996).

Do mesmo modo, o conhecimento tradicional da comunidade islâmica, do qual temos maior propriedade, concebe a natureza como Amānah, um depósito sagrado confiado por Deus à humanidade. O princípio do Tawīd (unicidade) lembra que cada árvore, rio e sopro de ar participa de uma totalidade intransponível entre criação e Criador. Os ensinamentos proféticos reforçam essa ética: plantar uma árvore é considerado um ato de caridade contínua (ṣadaqah jāriyah), e até mesmo o desperdício de água durante as abluções é alertado. O princípio de Tayyib (puro, bom, saudável ou ético) revela-se como um conjunto de práticas, que vai além do consumo individual: ele orienta para uma convivência justa e equilibrada entre todos — humanos, animais, plantas e elementos naturais. Ao exigir que o que é lícito (Halal) seja também ético e benéfico e não prejudicial, Tayyib implica reconhecer que o bem-estar de um depende do bem-estar do todo (Nursi, 2017; Fambras, 2025; An-Nawawi, 2020).

Tais orientações ecoam diretamente sobre emergências contemporâneas de eficiência energética, reflorestamento e justiça socioambiental. Se a modernidade ocidental produziu o colapso ecológico ao negar a agência da Terra, esses conhecimentos demonstram que há outras formas de habitar o mundo, mais resilientes e sustentáveis, capazes de reconhecer limites e responsabilidades. A cosmopolítica proposta por Latour encontra aqui um terreno fértil: não se trata de governar a Terra, mas de compor um coletivo que inclua humanos e não humanos, traduzindo suas vozes e agências em novas formas de decisão e convivência.


A lógica extrativista e o apagamento de conhecimentos

Uma triste realidade por trás de tudo isso é que a perda dos saberes tradicionais não acontece por acaso — longe disso. Ela é resultado de um modelo de desenvolvimento que prioriza cada vez mais a exploração e a padronização. Esse modelo se apropria e transforma a natureza em mercadoria, muitas vezes enxergando os conhecimentos tradicionais como meros pontos de partida para a criação de novos modelos que visam maximizar o lucro.

A verdade é que normalmente quando grandes empresas entram no campo da bioeconomia, os direitos das comunidades são desrespeitados e acontece a biopirataria, que é a apropriação de saberes sem consentimento nem compensação justa. Além disso, políticas climáticas baseadas em soluções prontas — criadas fora dos territórios e sem participação local — têm forte tendência ao apagamento da diversidade de visões e supressão da autonomia das comunidades.

Monocultura de pensamento — o preço de tratar a natureza como mercado

Tentar reduzir a crise climática usando apenas um método generalizado e teoricamente "otimizado" é prejudicial para todos nós. Assim como uma monocultura agrícola fragiliza a terra, uma monocultura de pensamento afeta a nossa capacidade de encontrar respostas para perguntas cada vez mais urgentes.

A rica diversidade de saberes tradicionais nunca pode ficar de fora das decisões sobre clima. Temos que dar um basta nos projetos de "energia verde" feitos sem diálogo; chega de ignorar os impactos negativos em inúmeras comunidades que deveriam ser cuidadosamente protegidas!

Quando perdemos esses conhecimentos, a perda não é só cultural — estamos abrindo mão de ferramentas que podem ser a chave para a nossa própria adaptação e sobrevivência no futuro.

Assim, a descarbonização não deve ser vista apenas como substituição de combustíveis fósseis por energias limpas, ou alguma outra "solução milagrosa", que ao fim se mostra apenas paliativa ou ineficaz — mas como parte de um processo mais profundo de transformação sociopolítica. Trata-se de abandonar o mito do progresso infinito e construir instituições, práticas e valores que nos permitam viver em um mundo finito, ativo e imprevisível. O futuro político e ético, e até de nossa sobrevivência, dependerá de nossa capacidade de reconhecer a Terra como parceira e não como recurso, e de aprender com aqueles saberes que nunca romperam os laços, na verdade inseparáveis, entre sociedade e natureza.

Respeito à biocultura para uma transição justa

Não resta dúvidas de que a crise climática é também uma crise de sentidos, de visões de mundo e de formas de se relacionar com o mundo em que vivemos, em geral. Combatê-la será impossível se dependermos apenas de tecnologia e da lógica de produção atual, é preciso imaginação política, justiça social e valorização da diversidade de saberes.

Reconhecer e respeitar a biocultura — os conhecimentos ancestrais que sustentaram a vida por séculos — é essencial para garantir que toda e qualquer transição ecológica alie justiça e eficiência.

O futuro climático só será fértil se for cultivado sob a luz de muitos sóis de saber!

Conclusão

O Antropoceno desvela a modernidade como uma cosmologia particular e não universal. Se os modernos acreditaram na neutralidade da ciência e na passividade da natureza, conhecimentos tradicionais nos lembram que estamos enredados em uma rede de interdependências da qual nunca saímos. Reaprender a habitar a Terra exige tanto crítica à arrogância ocidental quanto abertura para cosmologias que sempre souberam viver em equilíbrio com o mundo vivo. A descarbonização, nesse sentido, é mais do que técnica: é uma revolução ontológica e política, um convite a construir um comum terrestre capaz de sustentar a vida.


Referências:




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