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Destaques
Como os algoritmos moldam o mito de uma "sustentabilidade impossível" (e seu impacto social)
Quando os algoritmos decidem: percepção, pânico e o mito da “sustentabilidade impossível”
Série: Carbon QuickNotes (#2)
Por: VictoriaAlves-Moreira, Fundadora da NaqīKarbon.
Entre dados e decisões, nasce uma nova ecologia da percepção — onde os algoritmos, espelhos dos valores de quem os cria, moldam o que entendemos por sustentabilidade.
Algoritmos e meios moldam narrativas; dizer que “sustentabilidade é impossível” vira um efeito colateral informacional — não uma verdade técnica. A sustentabilidade é, na realidade, o caminho viável para emprego, renda e qualidade de vida. No entanto, aqui reside uma questão crítica, frequentemente ignorada: os algoritmos não são entidades neutras.
Vivemos numa época em que o que
pensamos ser “fato” muitas vezes nasce de um feed. Algoritmos de curadoria —
combinados com incentivos editoriais e formatos virais — selecionam, amplificam
e repetem narrativas. Quando essas narrativas pintam a sustentabilidade como um
beco sem saída (“ser sustentável significa sacrificar produção, empregos e
bem-estar”), o resultado prático é paralisia política, escolhas públicas
equivocadas e medo social.
Como os algoritmos moldam essa
percepção
- Curadoria e prioridade: algoritmos
decidem quais histórias, dados e opiniões chegam até nós;
- Bolhas de filtro: usuários ficam presos
em versões confirmatórias que reforçam o pessimismo;
- Economia da atenção: formatos
dramáticos e simplistas são premiados com alcance — complexidade perde;
- Viés do caminho mais fácil: assim como
é mais fácil calcular toneladas de carbono do que a saúde de um
ecossistema, é mais fácil para um algoritmo amplificar uma narrativa
fatalista e binária do que explorar soluções complexas e viáveis;
- Circuito editorial–algorítmico: veículos
influenciam sinais que as plataformas valorizam; o efeito é
recíproco, cristalizando vieses em salas de board distantes da
realidade local.
O dano da narrativa fatalista
Quando a percepção
coletiva, programada por esses sistemas, assume que sustentabilidade = perda,
quem perde são políticas públicas, investimentos em inovação e as próprias
comunidades que poderiam se beneficiar de transições justas. O mito fortalece o
status quo e marginaliza soluções que criam empregos verdes, renda estável e
soberania local.
O oposto é a realidade prática
Sustentabilidade bem desenhada
gera emprego, renda e qualidade de vida — não apenas “benefícios ambientais”.
Pense em cadeias alimentares locais que valorizam pequenos produtores; em
economia circular que cria microempresas de reparo e logística; em restauração
de ecossistemas que assegura serviços como água e polinização essenciais para a
produtividade. A verdadeira sustentabilidade é um alicerce que sustenta
a vida—em todas as suas dimensões.
O que mudar na arquitetura
informacional: por algoritmos com propósito
Para alinhar percepção com
impacto real e escapar das armadilhas dos vieses, precisamos de uma arquitetura
radicalmente diferente, onde algoritmos e veículos sejam:
- Plural: priorizem diversidade e
evidência robusta, não só engajamento. Suas entradas devem ir além do
superficial, incluindo dados sociais, econômicos e vozes locais;
- Participativo: não podem ser calibrados
apenas por uma visão de mercado. Suas regras devem ser influenciadas pelas
vozes das comunidades, produtores e detentores do conhecimento tradicional;
- Transparente e auditável: a metodologia
de curadoria não pode ser uma caixa-preta. Clareza sobre como uma
narrativa é promovida é fundamental para construir confiança;
- Adaptativo: um algoritmo inteligente
aprende com o mundo real. Ele se ajusta com base no feedback das
comunidades e nas novas evidências, evitando a cristalização de um viés
inicial.
Conclusão — ética e escolha
técnica: que futuro estamos programando?
A narrativa dominante não é
inevitável: é construída. O desafio final não é técnico; é moral. A
pergunta que devemos fazer é: "que rastro queremos que nossos
algoritmos deixem na Terra?"
Podemos e devemos programar
ecossistemas informacionais e econômicos que mostrem que sustentabilidade é um
projeto de futuro com retorno social e econômico imediato. Sustentabilidade que
não cuida das pessoas não é sustentabilidade — e sem ela não há futuro
produtivo a ser herdado. O convite está feito. Vamos, juntos, programar
um futuro que valha a pena ser herdado.
Leitura recomendada:
GBC Brasil. “Como as construções
sustentáveis contribuem para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da
ONU”. GBC Brasil. Disponível em: https://www.gbcbrasil.org.br/como-as-construcoes-sustentaveis-contribuem-para-os-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-da-onu/
Assembleia Legislativa do Estado
de São Paulo. “Notícia nº 389231”. Assembleia Legislativa do Estado de São
Paulo. Disponível em: https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=389231
Em especial:
Odum, Howard T. & Odum, Elisabeth C. (2001). A Prosperous Way Down: Principles and Policies. University Press of Colorado. ISBN 978-0-87081-908-7.
🔎 Este texto faz parte da
série Carbon QuickNotes, reflexões rápidas da NaqīKarbon sobre a crise
climática e os desafios da descarbonização no mundo.


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